Direita volver: a caduquice do “Franciscanismo” de esquerda

Texto de minha autoria publicado no blog  Brasil e Desenvolvimento

Classe média faz revolução?

É dificil afirmar o contrário. Dos países árabes ao Chile, da Europa aos Estados Unidos, o grande ator político por trás das revoltas que sacudiram essas sociedades em 2011 e reabriram uma discussão considerada morta ou velha pelo pensamento liberal foi a classe média. Para o historiador marxista inglês Eric Hobsbawn (leia aqui), “as ocupações na maior parte dos casos não foram protestos de massa, não foram os 99% (como os líderes dos movimentos de ocupação se autodenominam), mas foram os famosos ‘exércitos postiços’, formados por estudantes e integrantes da contracultura. Por vezes, eles encontraram ecos na opinião pública. Em se tratando das ocupações anti-Wall Street e anticapitalistas foi claramente esse o caso”.

O fenômeno levanta uma série de dúvidas para a esquerda tradicional. O quê faz com que a mesma classe média esteja por trás de protestos e revoltas organizadas em países tão distintos econômica e socialmente como o Egito e o Estados Unidos, Espanha e Síria? Do que trata e o que pretendem exatamente esses protestos de estudantes e seus Macs, Iphones e câmeras HD a exgir uma nova sociedade?

Para o filósofo Slavoj Zizek (aqui) movimentos como esses trazem uma nova linguagem para a crítica social. Para Hobsbawn, não há dúvida se tratar de um processo revolucionário. Algo comparado simbólicamente ao ano de 1848 quando revoltas estouraram em toda a Europa; mas dessa vez uma revolução feita por estudantes, pela classe média incluída digitalmente. Segundo ele, “estamos em meio a uma revolução, mas não se trata da mesma revolução. O que as une é um sentimento comum de descontentamento e a existência de forças comuns mobilizáveis – uma classe média modernizadora, particularmente, uma classe média jovem e estudantil e, é claro, a tecnologia, que hoje em dia torna muito mais fácil organizar protestos”.

Quando direita e esquerda ortodoxa unem vozes

A reação conceitual às mudança propostas e exigidas “pelos filhos do capitalismo” não tardou a aparecer. Como há dificuldade em contrapôr um projeto civilizatório que desmascare o receituário liberal clássico e injustificável de combate às crises capitalistas (arrocho ao trabalho, incentivos amplos ao capital), optou-se por discutir o perfil dos contestadores aos invés de suas idéias. A tentativa, carente de fundamento e, não por coincidência, partilhada entre a direita e parte da esquerda clássica, de desqualificar tais movimentos sustenta-se na suposta incorência de tais jovens que, munidos de educação formal de qualidade, acesso a bens de consumo e produtos tecnológicos, estão por trás de iniciativas que propõem igualdade material e o fim das opressões. Em oitavas diferentes do mesmo tom, a direita fala em hipocrisia enquanto parte da esquerda tradicional denuncia a contradição de um processo de transformação que não é gestado no seio das camadas genuinamente populares.

Em terras brasileiras, a ideia desembarcou com ares de crítica inteligente e divertida. No Facebook, o même (partícula de conteúdo viralizada na rede) “legal essa sua camiseta do Che Guevara. Você se comunica com seus amigos revolucionários por esse Iphone aí?”  foi compartilhado com ares de triunfalismo deboxado, como uma denúncia inquestionável da hipocrisia histórica da classe média de esquerda que se diz revolucionária.

E vc? Usa esse Iphone aí para reproduzir injustiças?

A direita e o “Franciscanismo” de esquerda como faces da mesma moeda

Se para a direita é hipócrita lutar com um smartphone mãos em prol dos que não tem o que comer, para a velha esquerda a prática antiga de estetização patriarcalista da pobreza produz uma recusa automática (e irracional) em levar a sério processos de mobilização e luta social convocados e organizados por jovens bem educados munidos de recursos tecnológicos de ponta. É o que eu chamo de “Franciscanismo” de esquerda, quando a cegueira dogmática leva à idealização da pobreza.

Em ambos os lados é evidente o equívoco na crítica à hipocrisa que pretensamente denunciam, mas reproduzem. À direita a descontrução é feita com menos dificuldade porque a crítica, nessa acepção, carece de um fundamento básico: lógica. Ou seja, a partir desse pensamento (?) para ser de esquerda de verdade deve-se abrir mão de tudo o que dispõe em prol da caridade ao pobres (“venda esse computador moderno e alimente famílias” é o que se ouve). Acontece, vejam só!, que abrindo mão de tais recursos aumenta-se ainda mais a desvatagem (como se ela já não fosse enorme) de progressistras em relação a conservadores na luta política contra privilégios e opressões. Ou seja, é corente que um conservador utilize meios de comunicação eficientes para propagar políticamente a manutenção da realidade, mas é ilegítimo que alguém de esquerda utilize os mesmos recursos em prol de uma sociedade mais justa e igual.

Não faz sentido, ou melhor, faz sentido na lógica de manutenção do status quo. Sob tal compreensão, para ser coerente de verdade um esquerdista precisa voltar no tempo, se descolar da realidade em que está inserido e, no limite do paroxismo (quem define o que é ou não supérfluo nesses casos?), utilizar orelhão, rádio a pilha e mimeógrafo para fazer luta política, ou pior, terá de vender sua casa, seu carro, abrir mão de sua educação, etc., até fazer voto total de pobreza em prol da coerência caridosa, confundida por tais críticos (com toda desonestidade intelectual que disso decorre) com ser de esquerda. Essa compreensão primária da disputa política, que denota falta de capacidade de formulação de projetos de sociedade, abandona o que realmente importa –a discussão em torno de qual sociedade desejamos– em prol da desqualificação menor do pólo erradiador de idéias contrárias. O que seria coerente? Não agir? Utilizar tais recursos apenas em benefício próprio? Deixar a atuação política? É o que essa crítica esconde: uma tentativa desqualificada de impedir a atuação transformadora de onde quer que ela se origine.

Ora, se por razões de ordem social, que no nosso caso é recheada de injustiças históricas, foi dada à classe média a possibilidade de acesso à educação formal, arte, esporte, bens de consumo e bens tecnológicos, nada mais justo (e necessário) que utilizem TODOS esses recuros materiais e imaterias na luta por transformação social, na luta contra tais injustiças que afetam a sociedade como um todo. Esse era o apelo da luta emancipadora do intelectual e político Darcy Ribeiro, para quem a universidade, os estudantes e a elite intelectual do Brasil tem o dever moral e o imperativo intelectual de utilizar seus conhecimento e potencialidades (que aqui podem ser vistos como privilégios de classe) em prol daqueles que não o tem, para a transformação. E aí, sim, é justo e necessário utilizar seu diploma universitário, seu smartphone que facilita a propagação de mensagens, seu computador capaz de editar peças gráficas e audiovisuais, o acesso às instuições, a boa localização em que vive, entre outros recursos, para lutar de todas as maneiras em favor e em aliança com os movimentos sociais populares, em colabaração para seu empoderamento legal, conceitual e técnico; um empoderamento, aliás, que é mútuo na medida em que não há uma hieraquia dos aprendizados nessa relação. Pudera tivessem ainda mais recursos tecnológicos para colocar a disposição dos trabalhadores nessa batalha…

Desconstruída a crítica que vem da direita –que apela por uma caridade que esconde o conflito político e mantém injusta a base estrutural da sociedade, vamos à esquerda ortodoxa.

Para isso, é importante lembrar: Marx não teorizou sobre a distribuição da pobreza e sim da riqueza. Sendo superficial: não se trata de levar pobreza aos ricos, mas riqueza ao pobres. De sair do reino da necessidade, para o reino da liberdade, como dizia o próprio. E a ênfase na palavra liberdade aqui é importante, porque em nossa sociedade capitalista acesso ao consumo é também empoderamento político e mais uma etapa de inclusão cidadã. E por consumo entenda-se desde a obtenção de alimentos básicos até livros e computadores. Lutar contra a pobreza é lutar pela liberdade e lutar pela liberdade é combater a pobreza material e imaterial.

A política do quanto pior melhor (quanto mais fome e desgraça, mais revoltado tende a ficar o povo e mais próximo da revolução ele estaria) –típica da esquerda radical dogmática– é, além de incoerente (você supostamente quer o melhor para o povo mas na prática deseja que ele esteja cada vez pior até que chege o dia da revolução), cruel do ponto de vista humano. Achar que mais trajédia social é parte “natural” de qualquer processo de mudança política é uma escolha que a esquerda da qual eu faço parte se recusa a aceitar.

Se para nós o que interessa é a construção de uma nova hegemonia, de uma nova cultura, de uma nova compreensão das relações de poder na sociedade que inclua democraticamente a todos, para essa outra esquerda todo processo que não vem de quem sofre no limite mais profundo da opressão, de quem não é gestado e formado como indivíduo na disputa clássica entre capital e trabalho, deixa de ser legítimo. Trata-se de uma lógica excludente e autoritária que, tomada em sua compreensão fundamental, jamais será capaz de produzir mudanças reais.

Ao receber o prêmio World Food Prize em reconhecimento às políticas públicas que combateram a fome e levaram 40 milhões de brasileiros a ascenderam de classe social e 28 milhões a deixarem pobreza extrema, o presidente Lula deu uma declaração impactante (aqui disponível em vídeo):

“A fome não leva ninguém à revolução, a fome leva à submissão. E quem tem que ajudar os faminitos não são só os famintos, somos nós que tomamos café de manhã, de tarde e de noite. Somos nós que precisamos, com muita humildade, estendermos a mão para ajudar aqueles que não tem força sequer para gritar que estão com fome”.

Apesar de contradito em parte pela história (a Russia revolucionária contou com um verdadeiro exército de famintos), o presidente mandou uma mensagem clara em seu discurso, mensagem essa que esteve implícita no discurso de vários revolucionários ao longo da história: a luta contra a fome é dever e responsabilidade de todos nós. A consolidação de uma revolução de bem alimentados e bem educados pode ser, quem sabe, mais bem sucedida que o exemplos fracassados que tivemos ao longo história.

“Ser um deles”

Outra dimensão dessa crítica é visão romantizada do militante que recusa o conforto de sua vida para lutar com, viver sua realidade e até “ser” um oprimido quando da disputa política, para compartilhar e vivenciar com ele a mesma realidade. Sem entrar no mérito dessa decisão, não acho que seja uma escolha possível (ou cogitável) para milhões de brasileiros que simpatizam com ideias progressitas e podem contribuir à sua maneira para a transformação social na atual conjuntura. Se deixar o conforto pequeno burguês em prol da militância junto aos movimentos populares é mais uma escolha e uma estratégia carregada de fundamentação prática e teórica, não há de se apontar esse como o único meio coerente de produção de mudança social sob pena de reduzirmos drasticamente nosso alcance político.

Há ainda outro ponto que envolve a aliança classe média-trabalhadores: a formação subjetiva e a carga simbólica que cada uma dessas classes carrega em sua formação. Ora, por mais que um militante abra mão de todos seus privelégios em prol de somar forças aos setores populares ele jamais será um deles no sentido constitutivo. E não o será não porque não é capaz de socializar-se como um igual, mas porque construiu sua subjetividade em processos de socialização, aprendizagem e educação completamente distintos. A honestidade política em se querer igual tendo consciência das diferenças é fundamental para um relação saudável no interior desta aliança entre progressitas de diferentes classes sociais. A ignorância dessa sutileza (nada sutil) pode incorrer na imposição cega de uma subjetividade sobre a outra, reproduzindo no interior da luta política por emancipação uma nova opressão.

Para o sociólogo Jessé Souza, a superação da coomprenção puramente econômica de classe social (seja pelo marxismo que a vê como um lugar no sistema de produção ou pelo liberalismo que a entende com base nos padrões de renda) é fundamental para entender o que se passa na sociedade e transformá-la  A determinação econômica de classe social seria portanto não uma mentira, mas uma meia verdade na medida em que ignora aspectos sociológicos relevantes. No livro “A Ralé”, ele discute a formação das classes sociais sob a ótica dos processos afetivos e emotivos de construção diferencial dos seres humanos, encobertos por essa associação puramente econômica (aqui em vídeo, Jessé debate a formação da nova classe média e as transformações no capitalismo brasileiro). Há um mundo de complexidades para além do marximo teórico.

A necessidade dessa compressão se estende da questão de classe para obviamente tocar a identidade. Se não compartilhar da identidade do oprimido em questão não lhe dá o direito de apropriar-se de uma condição que não é sua, tampouco deve te impedir de apoiar, intervir, ajudar, contribuir e militar ativamente pelos direitos que envolvem a questão.

Política transforadora: incluir ao invés de apartar

É evidente que há várias limitações constitutivas que contribuem para o não envolvimento da classe média em ações revolucionárias. O militante do B&D, Gustavo Capela, elenca várias delas nesse texto. Mas o fato é que de alguma forma isso parece estar mudando; e a classe média tem demonstrado um potencial considerável de mobilização seja no Brasil ou no resto do mundo. A explicação de Eric Hobsbawn para esse fenômeno de ruptura nos receiturários e modos tradicionais de compreensão das mudanças políticas vão ao encontro do argumento central desse texto. Para ele, “a esquerda tradicional foi moldada para uma sociedade que não existe mais ou que está saindo do mercado. Ela acreditava fortemente no trabalho operário em massa como o sendo o veículo do futuro. Mas nós fomos desindustrializados, portanto, isso não é mais possível”.

O cenário é duvidoso e segue em aberto. Para uma nova sociedade, novas formas formas de mobilização, novos sujeitos políticos, nova alianças. Para injustiças políticas históricas, o resgate da velha tradição humanista. Tudo somado, mostra-se um equívoco estratégico enorme ignorar neste momento a classe média como força propulsora de mudanças reais. É preciso um discurso que inclua, ao invés de apartar, atores políticos distintos a se unierem pela transformação da sociedade.

E isso é especialmente relevante no Brasil, onde discute-se a gênese de um novo ator sócio-político, a chamada “nova classse média”. A oposição de direita aos poucos acorda para a realidade e exerga, através de um (talvez o único) de seus melhores quadros, essa como uma oportunidade para o avanço da modernização conservadora. Apesar de extremamente mal interpretado por seus pares, a clareza de Fernando Henrique Cardoso a respeito desse tema é cristalina:

“Existe toda uma gama de classes médias, de novas classes possuidoras (empresários de novo tipo e mais jovens), de profissionais das atividades contemporâneas ligadas à TI (tecnologia da informação) e ao entretenimento, aos novos serviços espalhados pelo Brasil afora, às quais se soma o que vem sendo chamado sem muita precisão de “classe c” ou de nova classe média.

(…)  Pois bem, a imensa maioria destes grupos – sem excluir as camadas de trabalhadores urbanos já integrados ao mercado capitalista – está ausente do jogo político-partidário, mas não desconectada das redes de internet, Facebook, YouTube, Twitter, etc. É a estes que as oposições devem dirigir suas mensagens prioritariamente, sobretudo no período entre as eleições, quando os partidos falam para si mesmo, no Congresso e nos governos. Se houver ousadia, os partidos de oposição podem organizar-se pelos meios eletrônicos, dando vida não a diretórios burocráticos, mas a debates verdadeiros sobre os temas de interesse dessas camadas” (aqui, o texto na íntegra).

Vários autores discordam, entre eles o próprio Jessé Souza, da definição imprecisa dada ao termo “nova classe média”. Fala-se em nova classe trabalhadora, de uma classe com valores e posição social distintos da classe média tradicional. De qualquer maneira, é importante olhar esse fenômeno atentamente; é evidente que ela terá desdobramentos políticos consideráveis.

E nós, de esquerda, que desejamos uma transformação real e profunda desse país, como nos posicionaremos diante desse processo? Traremos para dentro do leque progressista esses que aos poucos empoderam-se como cidadãos, vindo a produzir o que pode se tornar no futuro nosso Ocupe Wall Street à brasileira, ou os designaremos como os novos privilegiados consumistas, como não dignos de nossos padrões de ação verdadeiramente revolucionários, jogando-os no colo da oposição

Blogueiro que denunciou estupro envolvendo filho do diretor da RBS é encontrado morto

Mais uma da série “imprensa, violência e poder”.  Sem dinheiro e proteção do Estado, blogueiros que exercitam seu direito constitucional à liberdade de expressão estão pagando com a vida por desafiarem os barões da velha mídia. Abaixo, matéria do blog Pragmatismo Político.
Blogueiro que denunciou estupro envolvendo filho do diretor da RBS é encontrado morto
Comentário do Site: A morte de Mosquito, que jamais se calou diante da operação abafa implementada por um grupo poderoso e pelos seus cúmplices, é um alívio para quem não estava nem um pouco acostumado a ter o calcanhar pisoteado. Agora já podem retomar tranquilamente a rotina. Caberá novamente às mídias alternativas fazer um pouco de barulho em meio ao silêncio conveniente; um silêncio que nem sequer esboça sinal de partida.
O blogueiro Amilton Alexandre, o Mosquito, foi encontrado morto em seu apartamento, em Palhoça, Santa Catarina, na tarde de ontem (13). Segundo a polícia, tratou-se de “suicídio por enforcamento”. A rápida conclusão, porém, não convenceu seus amigos e familiares, que exigem rigorosa apuração do caso.
Com suas “tijoladas” na internet, Mosquito fez inúmeros inimigos. Nos últimos tempos, ele alertou que estava sendo ameaçado. Na semana retrasada, ele anunciou o fim da sua página: “O blog Tijoladas acabou para eu continuar vivo. Não é uma capitulação. Não mudei meu modo de pensar. Não mudei minhas convicções”.
Leia também:
Um amigo pessoal de Mosquito, que pediu para ter o seu anonimato por ora preservado, revelou a Pragmatismo Político suas importantes impressões sobre a misteriosa morte do blogueiro. As informações seguem caminho completamente contrário às versões oficiais.
“Quem conheceu Mosquito sabe que não se suicidaria”, disse, enumerando as diversas razões que indicam a impossibilidade de suicídio. ”Ele era alvo de várias ameaças de morte. Era defensor da sustentabilidade, modo de vida saudável, andava de bicicleta, trocava frutas e verduras do quintal com seus vizinhos. Era defensor da transparência e combatia os poderosos. Era pai de uma adolescente. Filho querido de uma mãe ainda viva por quem  tinha muito carinho. Um cidadão com esse perfil não se suicida. A porta da sua casa estava aberta. Sua casa é de esquina, de um lado os fundos, do outro, um terreno baldio. Foi encontrado com lençol enrolado no pescoço, quem se suicida de forma tão cruel, correndo risco de morte lenta e dolorosa? Sendo morador solitário, não seria mais fácil entupir-se de comprimidos?
Mosquito ganhou fama nacional ao denunciar um caso de estupro em Florianópolis, envolvendo o filho de um diretor da poderosa RBS, afiliada da TV Globo. A mídia corporativa abafou o escândalo, só noticiado pela TV Record (vídeo abaixo).
A morte de Mosquito não pode ser abafada. O que se exige é que o caso, bastante estranho, seja apurado com rigor!

Site da Secretaria de Cultura do Distrito Federal invadido em favor da luta no Santuário dos Pajés

O site da Secretaria de Cultura do Distrito Federal (Secul) foi invadido nessa tarde. Em seu lugar foi postada uma mensagem de solidariedade a luta de resistência dos indígenas na capital federal. A autoria do ataque é reivindicada conjuntamente pelos Grupos AntiSec Brasil e IPiratesGroup. Até o momento desse post o site permanecia fora do ar.

http://www.sc.df.gov.br/

Abaixo, imagem da mensagem deixada pelos invasores no site

Abaixo, texto da mensagem deixada no site.

OWNED! 2x – iPiratesGroup & AntiSecBrTeam

Em solidariedade ao Satuário dos Pajés, contra o setor Noroeste e a especulação imobiliária em detrimento das reservas naturais através dos governos que, em nome do povo, utilizam o aparelho estatal para atender o apetite dos mercados. Pelo respeito ao povo e sua diversidade cultural!

Poesia Jenipapo-Kanindé

“Nós somos a natureza
Sem ela não podemos viver
Quando fomos expulsos,
As matas choraram,
Os rios secaram
E os animais gritaram
Mas lutamos como heróis
E nem todos foram derrotados
E uma semente foi plantada,
Cultivada e brotada
Onde deu frutos espalhados
Uma luta ameaçada
Querem nos calar
Nossas raízes cortar
Mas todos reunidos
Com a benção do pai Tupã
Iremos ganhar
E com a mãe natureza, Voltaremos a nos alegrar”

Vida inteligente na USP. Pesquisadores lançam nota contra violência policial e reitoria autoritária

Ainda há muita vida inteligentes na USP. Nessa nota, professores e pesquisadores da universidade se posicionam contra a violência policial no campus. Os argumentos são cristalinamente claros:


“Ao contrário do que tem sido propagandeado pela grande mídia, a crise da USP, que culminou com essa brutal ocupação militar, não tem relação direta com a defesa ou proibição do uso de drogas no campus. Na verdade, o que está em jogo é a incapacidade das autoritárias estruturas de poder da universidade de admitir conflitos e permitir a efetiva participação da comunidade acadêmica nas decisões fundamentais da instituição”.

“Por tudo isso, nós, pesquisadores da Universidade de São Paulo, alunos de pós-graduação, mestres e doutores, repudiamos o fato de que a polícia militar ocupe, ou melhor, invada os espaços da política, na Universidade e na sociedade como um todo”.

Vale a pena ler o texto todo e propagar.

Nota pública de pesquisadores da Universidade de São Paulo sobre a crise da USP

Nós, pesquisadores da Universidade de São Paulo auto-organizados, viemos por meio desta nota divulgar o nosso posicionamento frente à recente crise da USP.

No dia 08 de novembro de 2011, vários grupamentos da polícia militar realizaram uma incursão violenta na Universidade de São Paulo, atendendo ao pedido de reintegração de posse requisitado pela reitoria e deferido pela Justiça. Durante essa ação, a moradia estudantil (CRUSP) foi sitiada com o uso de gás lacrimogêneo e um enorme aparato policial. Paralelamente, as tropas da polícia levaram a cabo a desocupação do prédio da reitoria, impedindo que a imprensa acompanhasse os momentos decisivos da operação. Por fim, 73 estudantes foram presos, colocados nos ônibus da polícia, e encaminhados para o 91º DP, onde permaneceram retidos nos veículos, em condições precárias, por várias horas.

Ao contrário do que tem sido propagandeado pela grande mídia, a crise da USP, que culminou com essa brutal ocupação militar, não tem relação direta com a defesa ou proibição do uso de drogas no campus. Na verdade, o que está em jogo é a incapacidade das autoritárias estruturas de poder da universidade de admitir conflitos e permitir a efetiva participação da comunidade acadêmica nas decisões fundamentais da instituição. Essas estruturas revelam a permanência na USP de dispositivos de poder forjados pela ditadura militar, entre os quais: a inexistência de eleições representativas para Reitor, a ingerência do Governo estadual nesse processo de escolha e a não-revogação do anacrônico regimento disciplinar de 1972.

Valendo-se desta estrutura, o atual reitor, não por acaso laureado pela ditadura militar, João Grandino Rodas, nos diversos cargos que ocupou, tem adotado medidas violentas: processos administrativos contra estudantes e funcionários, revistas policiais infundadas e recorrentes nos corredores das unidades e centros acadêmicos, vigilância sobre participantes de manifestações e intimidação generalizada.

Este problema não é um privilégio da USP. Tirando proveito do sentimento geral de insegurança, cuidadosamente manipulado, o Governo do Estado cerceia direitos civis fundamentais de toda sociedade. Para tanto, vale-se da polícia militar, ela própria uma instituição incompatível com o Estado Democrático de Direito, como instrumento de repressão a movimentos sociais, aos moradores da periferia, às ocupações de moradias, aos trabalhadores informais, entre outros. Por tudo isso, nós, pesquisadores da Universidade de São Paulo, alunos de pós-graduação, mestres e doutores, repudiamos o fato de que a polícia militar ocupe, ou melhor, invada os espaços da política, na Universidade e na sociedade como um todo.

Fábio Luis Ferreira Nóbrega Franco – Mestrando da Filosofia-USP

Henrique Pereira Monteiro – Doutorando em Filosofia-USP

Patrícia Magalhães – Doutoranda em Física – USP

Silvia Viana Rodrigues – Doutora em Sociologia-USP

Bianca Barbosa Chizzolini – Mestranda em Antropologia-USP

José Paulo Guedes Pinto – Doutor em Economia – USP

Daniel Santos Garroux – Mestrando Pós-graduação em Teoria Literária – USP

Andrea Kanikadan –  doutoradando da ESALQ-USP

Nicolau Bruno de Almeida Leonel – Doutorando em Cinema-USP

Paula Yuri Sugishita Kanikadan – Doutora em Saúde Pública – FSP/USP

Luciana Piazzon Barbosa Lima – mestranda em Estudos Culturais – EACH-USP.

Gustavo Seferian Scheffer Machado – Mestrando em Direito do Trabalho – USP

Maria Tereza Vieira Parente – Mestranda em Arqueologia – USP

Marcelo Hashimoto, doutorando em Ciência da Computação-USP.

Luiz Ricardo Araujo Florence – Mestrando em Arquitetura e Urbanismo – USP

Jade Percassi – Doutoranda em Educação – USP

Maria Caramez Carlotto – Doutoranda em Sociologia-USP

Georgia Christ Sarris – Doutoranda Filosofia-USP

José Carlos Callegari – Mestrando em Direito do Trabalho – USP

Gilberto Tedeia – Doutor em Filosofia-USP

Anderson Gonçalves- Doutor em Filosofia-USP

Douglas Anfra – Mestrando em Filosofia – USP

Fábio H. Passoni Martins –  Mestrando – Depto de Teoria Literária e Literatura Comparada

Eduardo Altheman Camargo Santos – Mestrando em Sociologia-USP

Fernanda Elias Zaccarelli Salgueiro – Graduanda Filosofia-USP

Guilherme Grandi – Doutor em História Econômica – USP

Yardena do Baixo Sheery – PPG Artes Visuais – ECA-USP

Lucia Del Picchia, doutoranda em Direito-USP

Fernando Rugitsky, mestre em Direito-USP

Ricardo Leite Ribeiro, mestrando em Direito-USP

Maira Rodrigues – doutoranda em Ciência Política – USP.

Ana Lúcia Ferraz – Doutora em Sociologia – USP.

Daniela Silva Canella, doutoranda em Nutrição em Saúde Pública – USP Tatiana de Amorim Maranhão – Doutora em Sociologia-USP

Ana Paula SAlviatti Bonuccelli – Mestranda em História – USP

Anderson Aparecido Lima da Silva – Mestrando em Filosofia – USP

José Calixto Kahil Cohn – Mestrando em Filosofia – USP

Antonio Fernando Longo Vidal Filho – Mestrando em Filosofia -USP

Bruna Della Torre de Carvalho Lima – Mestranda em Antropologia – USP

Ana Paula Alves de Lavos – Mestre em Arquitetura e Urbanismo – EESC – USP

Lucas Amaral de Oliveira – Programa de Pós Graduação em Sociologia – USP

Bruna Nunes da Costa Triana – Programa de Pós-Graduação em Antropologia – USP

José César de Magalhães Jr. – Doutorando em Sociologia – USP

Eduardo Orsilini Fernandes – Mestrando em Filosofia -USP

Ricardo Crissiuma – mestre em Filosofia USP

Philippe Freitas – Mestrando em Música – UNESP

Weslei Estradiote Rodrigues – Mestrando em Antropologia – USP

Bruno de Carvalho Rodrigues de Freitas – Graduando em Filosofia – USP

Camila Gui Rosatti – Graduando em Ciências Sociais – USP

Martha GAbrielly Coletto Costa – mestranda em Filosofia – USP

Rafael Gargano – Mestrando em Filosofia – USP

Antonio David – Mestrando em Filosofia – USP

Pedro Alonso Amaral Falcão – Mestrando em Filosofia – USP

Lígia Nice Luchesi Jorge, PPG em Língua Hebraica, Literatura e Culturas Judaicas – USP

Camila Rocha – Mestranda em Ciência Política – USP

André Kaysel – Doutorando em Ciência Política – USP

Michele Escoura – Mestranda em Antropologia -USP

Vladimir Puzone -Doutorando em Sociologia-USP

Arthur Vergueiro Vonk – Mestrando em Teoria Literária e Literatura Comparada – USP

Renata Cabral Bernabé – Mestranda em História Social – USP

Raquel Correa Simões – Graduanda em Filosofia – USP

Danilo Buscatto Medeiros – Mestrando em Ciência Política-USP

Ana Flávia Pulsini Louzada Bádue – Mestranda em Antropologia-USP

Carlos Henrique Pissardo. Mestre – Dep. de Filosofia da USP e Diplomata.

Anouch Kurkdjian – Mestranda em Sociologia-USP

Léa Tosold – Doutoranda em Ciência Política-USP

Pedro Fragelli – Doutor em Literatura Brasileira-USP

Christy Ganzert Pato – Doutor em Filosofia – USP

José Agnello Alves Dias de Andrade – Mestrando em Antropologia – USP

Nicolau Dela Bandera – doutorando em Antropologia USP

Felipe de Araujo Contier – Mestrando em Arquitetura-IAU-SC-USP

Mauro Dela Bandera Arco Júnior –  mestrando em Filosofia USP

Ane Talita da Silva Rocha – mestranda em Antropologia – USP

Juliana Andrade Oliveira – Doutoranda em Sociologia

Reinaldo César – Doutorando em Ciência dos Materiais – USP

Manoel Galdino Pereira  Neto – doutor em ciência política da USP

Carlos Filadelfo de Aquino, doutorando em Antropologia USP.

Jonas Marcondes Sarubi de Medeiros – mestrando em Filosofia-USP

Ana Letícia de Fiori – Mestranda em Antropologia – USP

Gonzalo Adrián Rojas – Doutor Ciência Política USP

Mariana Toledo Ferreira – Mestranda em Sociologia – USP

Julia Ruiz Di Giovanni – Doutoranda em Antropologia Social

Caio Vasconcellos – doutorando em sociologia – USP

Reginaldo Parcianello – doutorando/Literatura Portuguesa – USP

Fernando Sarti Ferreira – mestrando em História Econômica – USP

Júlia Vilaça Goyatá – mestranda em Antropologia- USP

Maria Aparecida Abreu – doutora em Ciência Política – USP

Bruno Nadai – Doutorando em Filosofia – USP

João Alexandre Peschanski – Mestre em Ciência Política – USP

Lucas Monteiro de Oliveira – Mestrando em história social – USP

Fabrício Henricco Chagas Bastos – Mestrando em Integração da América Latina – USP

Rafaela Pannain – Doutoranda em Sociologia- USP

Bernardo Fonseca Machado – mestrando em Antropologia – USP

Victor Santos Vigneron de La Jousselandière – mestrando em História – USP

Gabriela Siqueira Bitencourt – mestre em Letras – USP

Dalila Vasconcellos de Carvalho , Mestre em Antropologia Social-USP.

César Takemoto Quitário – mestrando em Letras – USP

Maíra Carmo Marques – mestranda em Letras – USP

Ana Carolina Chasin – doutoranda em sociologia-USP

Dimitri Pinheiro – doutorando em sociologia-USP

Natália Fujita – doutoranda em Filosofia – USP

Julio Miranda Canhada – doutorando em Filosofia – USP

Caio M. Ribeiro Favaretto Mestrando Dpto de Filosofia – USP

Juliana Ortegosa Aggio – doutoranda em Filosofia – USP

Bruna Coelho – mestranda em Filosofia – USP

Ana Carolina Andrada – mestranda em Sociologia – USP

Karen Nunes – mestranda em sociologia – USP

Monise Fernandes Picanço – Mestranda em Sociologia – USP

Arthur Oliveira Bueno – Doutorando em Sociologia – USP

Guilherme Nascimento Nafalski – mestre em Sociologia – USP

Tatiane Maíra Klein, Mestranda em Antropologia Social/USP

Ana Paula Bianconcini Anjos – doutoranda em Letras – USP

José Paulo Martins Junior – Doutor em ciência política – USP

Demétrio Gaspari Cirne de Toledo – Doutorando Sociologia – USP.

Pedro Fragelli – Doutor em Literatura Brasileira-USP

Evandro de Carvalho Lobão – Doutor em Educação – FE/USP

Walter Hupsel – Mestre em Ciência Política – USP

Carina Maria Guimarães Moreira e sou doutoranda em Artes Cênicas na UNIRIO.

Marinê de Souza Pereira – Doutora em Filosofia-USP

Fabiola Fanti – Mestre em Ciência Política – USP

Verena Hitner – mestre em Integracao da America Latina – USP

Fabio Cesar Alves – Doutorando- Teoria Literária- FFLCH- USP

Frederico Hnriques  - Mestre em Sociologia pela USP

Fábio Pimentel De Maria da Silva – Mestre em Sociologia – USP

Natália Bouças do Lago – mestranda em Antropologia USP

Fábio Silva Tsunoda – mestrado em sociologia – USP

Terra Friedrich Budini, doutoranda em ciência política – USP

Natália Helou Fazzioni – Mestranda em Antropologia Social – USP

Renato Bastos – Mestre em História Econômica – USP

Andreza Tonasso Galli – Mestranda da Sociologia -USP

Andreza Davidian – mestranda em Ciência Política – USP

Dioclézio Domingos Faustino – Mestrando – Filosofia – USP

Fernando Costa Mattos – Doutor em Filosofia – USP

Joaquim Toledo Jr – Mestre em Filosofia pela USP.

Erinson Cardoso Otenio – doutorando em filosofia – USP

Berilo Luigi Deiró Nosella, sou doutorando em Artes Cênicas na UNIRIO

Rafael Alves Silva – Doutorando em Sciências Sociais – UNICAMP

Ludmylla Mendes Lima – Doutoranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa – USP

Tânia Cristina Souza Borges – Mestranda em Letras – USP

Miguel Barrientos – Doutorando em Ciência Política – USP.

Eveline Campos Hauck – Mestranda em filosofia pela USP

Mariana Zanata Thibes – Doutoranda Sociologia – USP

Nahema Nascimento Barra de Oliveira Mestre em Ciencias Humanas – USP

Manoel Galdino Pereira Neto – Doutor em Ciência Política-USP

Gonzalo Adrián Rojas – Doutor em Ciencia Politica-USP

Miguel Barrientos – Doutorando em Ciência Política-USP

Maria Aparecida Abreu – Doutora em Ciência Política-USP

Pedro Feliú – Doutorando em Ciência Política – USP

Fernando Gonçalves Marques – Doutorando em Ciência Política-USP

Petronio De Tilio Neto – Doutor em Ciência Política-USP

José Paulo Martins Junior – Doutor em Ciência Política-USP

Renato Francisquini – Doutorando em Ciência Política-USP

Júlio César Casarin Barroso Silva – Doutor em Ciência Política-USP

Francisco Toledo Barros – Mestrando em Arquitetura e Urbanismo

Marcia Dias da Silva – Mestre em História Social – USP

Maira Rodrigues – doutoranda em Ciência Política – USP.

Ivana Pansera de Oliveira Muscalu – Mestranda História Social – USP

Renata Lopes Costa Prado – Doutoranda do Programa de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano – USP

Emi Koide – Doutora em Psicologia – USP

Mario Tommaso Pugliese Filho – Mestre em Literatura Brasileira – USP.

Gabriela Viacava de Moraes – Mestranda em Literatura Brasileira – USP

Tatiane Reghini Matos – Mestranda em Letras – USP

Andréia dos Santos Meneses – Doutoranda em Letras – USP

Kátia Yamamoto – Mestranda em Psicologia USP

Lygia de Sousa Viégas  - Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano da USP.

Daniel Gomes da Fonseca – Mestrando em Teoria Literária e Literatura Comparada – USP

Michelangelo Marques Torres – mestrando na Unicamp e graduado pela USP

Luana flor Tavares Hamilton – mestrança em psicologia – USP

Renan Honório Quinalha – mestrando em Sociologia Jurídica na USP

Adriana De Simone – Doutora em Psicologia – IP/USP

Grazielle Tagliamento – doutorado PST – USP

Tamara Prior- mestranda em História Social – USP

Airton Paschoa -Mestre em Literatura Brasileira – USP

Daniela Sequeira – mestra em Ciência Política – USP

Thaís Brianezi Ng – doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental – USP

Davi Mamblona Marques Romão – mestrando – PSA – Psicologia

Rafael Godoi – Doutorando em Sociologia -USP

Vanda Souto – Mestranda em Ciências Sociais – UNESP – Marília

Pedro Rodrigo Peñuela Sanches – Mestrando em Psicologia USP

Grazielle Tagliamento – Doutoranda Psicologia – USP

Monica Loyola Stival – Doutoranda em filosofia – USP

Tatiana Benevides Magalhães Braga Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela USP

Regina Magalhães de Souza, doutora em Sociologia – USP

Ludmila Costhek Abilio – Mestre em sociologia – USP

Gabriela Viacava de Moraes – Mestranda em Literatura Brasileira –  USP

Tatiane Reghini Matos – Mestranda em Letras – USP

Andréia dos Santos Meneses – Doutoranda em Letras – USP

Edson Teles – doutor em Filosofia – USP

Julia Maia Peixoto Camargo – Graduanda em Ciências Sociais-USP

Rodnei Nascimento – Doutor em filosofia – USP.

Rafael Luis dos Santos Dall’olio – Mestrando em História Social – USP

Ana Aguiar Cotrim – Doutoranda em Filosofia – USP

Tercio Redondo – Doutor em Literatura Alemã – USP

Maria Cláudia Badan Ribeiro Doutora em História Social – USP

Pedro Mantovani- Mestrando em Filosofia- USP

Stefan Klein – Doutorando em Sociologia – USP

Wagner de Melo Romão, doutor em Sociologia -USP

Maria de Fátima Silva do Carmo Previdelli –  Doutoranda em História Econômica – USP

Felipe Pereira Loureiro – doutorando em História Econômica – USP

Thiago de Faria e Silva – Mestre em História Social – USP

Marcus Baccega – Doutor em História Medieval – USP

Luciana Moreira Pudenzi – Mestre em Filosofia – USP

Daniela Jakubaszko – Doutora em Ciências da Comunicação pela ECA-USP

Leo Vinicius Maia Liberato, ex-pos-doutorando no Departamento de Filosofia da USP

Maria Lívia Nobre Goes – Graduanda em Filosofia-USP

Agnaldo dos Santos – Doutor em Sociologia – USP

Annie Dymetman doutora em Ciências Sociais – USP

Evandro NoroFernandes – Mestre em Geografia- USP

Wilma Antunes Maciel  -  Doutora em História Social – USP

Luciano Pereira – Doutor em filosofia –  USP

Guilherme Varella, mestrando em Direito de Estado

Constância Lira de Barros Correia Rodrigues Costa – Mestranda em Ciência Política – USP

Ester Gammardella Rizzi – Mestre em Filosofia e Teoria Geral do Direito – USP

Cristiana Gonzalez  - mestranda em sociologia – USP

Rafaela Aparecida Emetério Ferreira Barbosa – Mestranda em Direito do Trabalho – USP

Franco Nadal Junqueira Villela – Mestre em Ciência Ambiental – USP

Clara Carniceiro de Castro, doutoranda em Filosofia-USP

Marcelo Netto Rodrigues – mestrando em Sociologia – USP

Elisa Klüger – mestranda em sociologia – USP

Marilia Solfa – Mestre em Arquitetura – USP

Pedro Feliú – Doutorando em Ciência Política – USP.

Renato Francisquini, doutorando em Ciência Política – USP

Júlio César Casarin Barroso Silva – doutor em Ciência Política – USP

Andreza Davidian – mestranda em Ciência Política – USP

Andrea Kanikadan – doutorando em Ecologia Aplicada na ESALQ em Piracicaba.

Miguel Barrientos – Doutorando em Ciência Política – USP

Diogo Frizzo – Mestrando em Ciência Política – USP

Vinicius do Valle – Mestrando em Ciência Política – USP

Carolina de Camargo Abreu – Doutoranda em Antropologia – USP

Tatiana Rotolo- Mestre em Filosofia pela USP

Pedro Ivan Moreira de Sampaio – Graduando em Direito PUC-SP e Filosofia – USP

Thaís Brianezi Ng, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciência Ambiental – USP

André-Kees de Moraes Schouten – Doutorando em Antropologia Social – USP

Alvaro Pereira – Mestre em Direito – USP

Vinícius Spira – mestrando em Ciências Sociais – USP

Rafael Faleiros de Pádua, doutorando em Geografia-USP

André Luis Scantimburgo – Mestrando em Ciências Sociais pela UNESP de Marília/SP.

Rosemberg Ferracini – Doutorando em Geografia Humana – Universidade de São Paulo – USP

Lucas Brandão – Mestrando em Sociologia-USP

Márcia Cunha – doutoranda em Sociologia – USP

Nilton Ken Ota – doutor em Sociologia – USP

Felipe Figueiredo – Bacharel em Letras – USP

Bruno Boti Bernardi – Doutorando em Ciência Política – USP

Roberta Soromenho Nicolete – Mestranda em Ciência Política – USP

Lara Mesquita – Mestre em Ciência Política – USP

Milene Ribas da Costa – Mestre em Ciência Política – USP

Katya dos Santos Schmitt Parcianello – mestranda em História Econômica/ USP

Alcimar Silva de Queiroz – Doutor em Educação – USP

Paulo Vinicius Bio Toledo – mestrado Artes Cênicas

Ruy Ludovice – mestrando em Filosofia – USP

Pollyana Ferreira Rosa – Mestranda em Artes Visuais – USP

Patrícia de Almeida Kruger – Mestranda em Letras – USP

Giselle Cristina Gonçalves Migliari – Mestranda em Literatura Espanhola – USP

Wellington Migliari – Mestre em Literatura Brasileira – USP

Diana P. Gómez – Mestranda Antropologia Social

Simone Dantas – Mestranda em Letras-USP

Eduardo Zayat Chammas, mestrando em História Social – USP

Maristela de Souza Pereira – Doutoranda em psicologia – USP

Virginia Helena Ferreira da Costa  - Mestranda em filosofia – USP

Gustavo Motta – mestrado Artes Visuais – USP

Luiz Fernando Villares, doutorando Faculdade de Direito – USP

O gozo “das gentes diferenciadas”

Fica a dica!

Essa semana entrará para a história no Brasil.

Na USP, o reitor João Grandino Rodas (aquele, indicado de José Serra, que sequer teve a capacidade ganhar nas urnas) abriu de vez as portas, mentes e corações da Universidade para a PM. O rito de passagem não poderia ter sido outro: prisões, repressão truculenta, indiciamentos…400 policiais, 50 viaturas, helicóptero, Tropa de Choque, PM e Cavalaria para desocupar 70 (isso mesmo!) estudantes que não ofereceram nenhuma resistência.

No Senado, estudantes da Universidade de Brasília que protestavam contra a aprovação do Código Florestal foram violentados e presos pela polícia do Senado. Um deles foi atacado com uma arma de choques e desmaiou. As imagens são fortes.

No Setor Noroeste – a sagrada terra especulada – a luta legítima de indígenas pela permanência na terra que ocupam há anos é alvo do preconceito racial da imprensa local e de parte da opinião pública que, como se dona da discricionaridade para definir identidades, se recusa a aceitá-los como indígenas para negá-los um direito fundamental garantido pela constituição brasileira.  Enquanto isso, os conflitos se acirram na área.

Há algo de muito errado com esse país. Revertendo e negando qualquer noção lógica bom-senso, o brado dos privilegiados fez-se ouvir nas mídias sociais. Foi um tal de:  ”bando de vagabundo” daqui, ”enfia a porrada neles” de cá, “manda prender” de lá, e nos sorrisos de satisfação triunfante, no prazer catártico da violência, a sentença final: o ódio ao oprimido.

A discussão sobre as drogas e segurança pública, impregnada de ódio de classe, recorre ao mesmo vocabulário. A moda é clamar para que os capitães Nascimento salvem o Brasil do crime. Nesse texto, discuto a relação entre proibicionismo e violência no problema das drogas.

O fato é que temos percebido uma escalada conservador nas redes sociais. Do torpe preconceito de classe destilado contra o ex-presidente Lula ao ódio racista contra os índios do setor Noroeste em Brasília, “as gentes diferenciadas” vomitam o que há de mais atrasado e obscurantista no debate político. Qualquer semelhança com a agenda da última campanha eleitoral não é mera coincidência. Impossível não lembrar: a campanha irônica #votoserrapq mostrou que a brincadeira é bem séria.

Como bem lembrou o colega Bruno Cava: “O que mais impressiona na repressão na USP foi a pulsão de morte da classe média paulistana, que virou os olhinhos”. Triste! Aqui, o diálogo imperdível de socialites paulistanas sobre a operação na USP. Uma peça da comédia vida real. Segundo uma delas, “a polícia poderia ter sido mais firme com esses meninos”.

Corrupção de prioridades

Tão tragicômico quanto é perceber que trata-se da a mesma juventude – a minha geração – que ocupa as redes e ruas nas lutas contra a “corrupção”. Claro, ninguém é contra “lutar pelo fim corrupção”, até mesmo porque na falta de um programa ou medidas concretas para a discussão, isso é tudo nada ao mesmo tempo. Mas a inferência fala por si: as marchas da corrupção estão cheias dos invasores de condomínios de luxo do Lago Sul, de “revoltados” contra a lentidão no trânsito por conta das marchas do MST, contra o direito dos indígenas, dos sem-teto, dos beneficiários de programas de transferência de renda, dos homossexuais, mulheres e qualquer outra categoria que eles se negam a denominar oprimido para imputar o rótulo de “privilegiados”, de “aproveitadores”, numa inversão patológica de conceitos.

Mauricinhos e mauricinhas incentivados e aplaudidos pelos “analistas” da mídia corporativa e por seus papais que ganham – em média – de 5 e 10 vezes mais que a massa dos trabalhadores brasileiros. De que corrupção estamos falando, meus amigos? Onde estão os corruptores contra os quais as faixas e frases de efeitos nas mídias sociais não se levantam? Onde começa o processo de corrupção? O que desejamos com essa luta? Onde foi a parar a luta contra a corrupção da fome, da desigualdade de renda brasileira que bate níveis africanos?

Sei que há muitos de nós que defendem um outro mundo possível – mais tolerante, mais justo, mais livre e pacífico. Está na hora que mostramos que somos maioria.

Aprendendo política com a “gente diferenciada”

Resistente à onda de ódio e preconceito que tomou conta de parte da população brasileira – e cansado de discutir em círculos e à exaustão, resolvi fazer um vídeo humorístico para demostrar o quão tragicômica é a situação que vivemos – um #votoserrapq sem campanha eleitoral – uma piada contra o conservadorismo; porque sem humor esse ódio todo acaba contagiando a gente e se transforma em câncer.

Mas as vezes a vida imita arte com tal grau de absurdo que nem mesmo a mais criativa das mentes é capaz de caricaturar com tanta originalidade a situação. É o caso desse vídeo em que “socialites” paulistanas se reúnem para fazer “política”. Tive de me curvar e abandonar a idéia de produzir o vídeo-caricatura. Era bom demais para ser verdade. O botox, as jóias, as comidinhas, os delírios. Sobre a ocupação da USP? “Faltou a polícia ser mais dura com o meninos”. Sobre o MST? “São todos mafiosos”.

Simplesmente perfeito. Uma obra prima de caricatura do pensamento das “gentes diferenciadas”, os mesmos argumentos defendidos em tom de indignação ou erudição nas mídias sociais que aqui são levados ao paroxismo do preconceito ignorante. E o pior é que é tudo verdade. É rir para não chorar.

Reação à reação. Desconstruindo a repressão na USP

Qual é a pauta mesmo? Maconha!?

Algo precisa ficar bem claro em relação ao que ocorreu na USP: quando o diálogo está no horizonte, qualquer violência é injustificável. A truculência impera onde morre a política.

A questão não é discutir apenas o mérito do ato especifico da ocupação da USP – que, sim, pode ter sido um erro em vários aspectos, mas debater sua pauta central e o quê está por trás da disputa social que a envolve. Só assim avançaremos na busca de soluções.

Erro estratégico, vitória ideológica

Precisamos admitir: as ocupações estão sendo banalizadas como instrumento de reivindicação pelo movimento estudantil. A Universidade de Brasília, da qual fui estudante até esse ano, é um indício disso. Depois de 2008, quando retiramos um reitor corrupto após uma ocupação vitoriosa, foram sete ocupações de reitoria até hoje. Nenhuma delas alcançou a dimensão e projeção daquela.

Longe de focar meus argumentos contra esse meio legítimo de reivindicação, chamo a atenção para a necessidade de avaliação estratégica e tática das mobilizações sociais. É preciso buscar o mínimo de pragmatismo para entender o contexto da disputa em questão. Ação direta sem reflexão estratégica não é movimento, é performance.

Ao que tudo indica a ocupação da USP incorreu em parte desses erros. Me falta argumentos para analisar a fundo e esse não é o objetivo do texto. A diferença de tratamento com os manifestantes, no entanto, foi gritante entre as duas universidades. Na USP, o reitor João Rodas enfrentou três ocupações de reitoria e todas foram retiradas pela polícia, via ordem judicial e porrete, gerando desgaste, conflito e truculência; na UnB, as sete ocupações de reitoria desde que o reitor José Geraldo assumiu foram todas esvaziadas e/ou resolvidas pela negociação.

Abaixo, declaração do professor Luiz Renato Martins sobre a visão da atual reitoria em relação a segurança na universidade. A luta não é pelo “direito de fumar maconha”. A luta é contra a presença da PM no campus, o modo como atual gestão trata os movimentos sociais, a legitimidade de um reitor que não foi eleito democraticamente, mas imposto pelo então governador José Serra.

Pois é disso que estamos falando. O bom-senso mostra que repressão não é sinônimo de sucesso para a coação de manifestações iniciadas justamente contra a repressão. Assim o foi em Wall Street, em Santiago, na Espanha – a repressão serviu como combustível moral e ideológico para mais e mais mobilização. O tiro sempre sai pela culatra. Na USP, os radicais isolados do movimento estudantil que ocupavam a reitoria acabam de ganhar a adesão dos moderados de todas as matizes e demais estudantes de bom-senso. Uma greve geral dos estudantes acaba de entrar em pauta. Parafraseando um amigo: os estudantes acertaram ainda que errando ao mostrar a face cruel e conservadora de uma parte da sociedade brasileira.

A  delinquência suposta

Independente da pauta e do modo reivindicação, é um absurdo reprimir antes de se negociar. E não me venha dizer que tudo que foi quebrado, que havia coquetéis Molotov, que se tratava deu um bando de maconheiros, deliquentes. Eu não compro essa. E não compro porque sei que os estudantes não são burros! Já participei de ocupações. Os estudantes que prezam minimamente por sua integridade física jamais irão enfrentar heroicamente 400 policiais armados até os dentes e tão pouco quebrarão a reitoria sob a pena de destruírem a própria pauta que defendem perante a opinião pública. Podem errar, mas suicidas garanto que não são. Conversando com integrantes do MST e MTST ouvimos diariamente relatos de “armas” plantadas e destruições forjadas pela polícia em protestos. É ingênuo esquecer dessas estratégias clássicas de repressão aos movimentos sociais adotadas pela polícia desde a época da ditadura. Não duvidaria se esse fosse o caso agora.

O relato (aqui) dessa estudante de jornalismo (contrária a ocupação) é relevador. Ela mostrou exatamente o que viu e descreve algo que o espetáculo de ódio da imprensa ignora solenemente. Algumas perguntas são, no mínimo, incômodas. Por que a polícia impediu a imprensa de acompanhar a operação? Por que liberou a entrada apenas após a retirada dos estudantes?

Digamos que a locura da versão de que havia coquetéis Molotov lá dentro fosse verdade, é importante lembrar: nenhum coquetel Motolov foi jogado, nenhuma resistência foi oferecida e os estudantes saíram pacificamente. Que conceito de justiça é esse que pune pretensas intenções não concretizadas? Vamos aplicar esse conceito a outros casos?

Universidade não combina com vigiltantismo

Como escrevi aqui, o ambiente universitário – livre por definição – não combina com o obscurantismo vigilantista. Como bem demonstrou André Forastieri (aqui), universidade não é lugar para repressão, mas sim contestação. “Universidade não é para socar o máximo de informação nos miolos da juventude e produzir em série um exército de robôs tecnocratas. Trata-se de formar as melhores cabeças do país, o que é impossível sem liberdade e libertinagem”, pontuou o jornalista. Tô com ele.

E garantir a liberdade de transgressão não significa liberar o crime. Aqui, discuto modelos alternativos de segurança para situações como essa.

O argumento do “quem não deve não teme” é absurdo. Estudo, sou honesto, não cometo crimes, mas nunca quis a polícia devessando minha vida universitária. E você, cidadão honesto e de bem, pelo simples fato de nada dever, aceitaria a quebra de seu sigilo bancário, a leitura de suas correspondências ou questionamento constante de para onde vai ou quê está fazendo? Tenho certeza que não.

Repetirei até o fim: a discussão não é apenas sobre os estudantes da USP, é sobre o modelo de segurança que queremos e a sociedade em que desejamos viver. E nesse debate, não podemos compactuar com o ódio repressor destilado por parte da população.

Estudante contrária a ocupação da USP fala sobre o que viu

O texto é de Shayene Metri, estudante de jornalismo e repórter do jornal Campus. Que fique claro: ela é CONTRA a ocupação da USP. Mas assim como ela, acho que esse não é ponto. O relato infelizmente apenas atesta o que temos dito a respeito das ações da PM na universidade.

Por Shayene Metri

Cheguei na USP às 3h da manhã, com um amigo da sala. Ia começar o nosso ‘plantão’ do Jornal do Campus. Outros dois amigos já estavam lá. A ideia era passar a madrugada lá na reitoria, ou pelas redondezas. 1) para entender melhor a ocupação, conhecer e poder escrever melhor sobre isso tudo. 2) para estarmos lá caso a PM realmente aparecesse para dar um fim à ocupação.

Conversa vai, conversa vem. O tempo da madrugava passava enquanto ficávamos lá fora, na frente da reitoria, conversando com alunos da ocupação. Alguns com posicionamentos bem definidos (ou inflexíveis), outros duvidando até das próprias atitudes. A questão é: os alunos estavam lá e queriam chamar atenção para a causa (ou as causas, ou nenhuma causa)…e, por enquanto, era só. Não havia nada quebrado, depredado ou destruído dentro da tão requisitada reitoria (a única marca deles eram as pixações). A ocupação era organizada, eles estavam divididos em vários núcleos e tinham medidas pra preservar o ambiente. Aliás, nada de Molotov.

Mais conversa foi jogada fora, a fogueira que aquecia se apagou várias vezes e eu levantei a pergunta pra alguns deles: e se a PM realmente aparecesse lá logo mais? Seria um tiro no pé dela? Ela sairia como herói? Os poucos que conversavam comigo (eram uns 4, além dos amigos da minha sala) ficaram divididos. “Do jeito que a mídia está passando as coisas, eles vão sair como heróis de novo”, disse um. “Se ele vierem vai ter confronto e isso já vai ser um tiro no pé deles”, disse outra. Mas, numa coisa eles concordavam: poucos acreditavam que a PM realmente ia aparecer.

Eu achava que a PM ia aparecer e muito provavelmente isso que me fez ficar acordada lá. Não demorou muito e, pronto, muita coisa apareceu. A partir daí, meu relato pode ficar confuso, acho que ainda não vou conseguir organizar tudo que eu vi hoje, 08 de novembro.

Muitos PMs chegaram, saindo de carros, motos, ônibus, caminhões. Apareceram helicópteros e cavalaria. Nem eu e, acredito, nem a maior parte dos presentes já tinham visto tanto policial em ação. Estávamos em 5 pessoas na frente da reitoria. Dois estudantes que faziam parte da ocupação, eu e mais 2 amigos da minha sala, que também estavam lá por causa do JC. Assim que a PM chegou, tudo foi muito rápido:

os alunos da ocupação que estavam com a gente sugeriram: “Corram!”, enquanto voltavam para dentro da reitoria. Os dois amigos que estavam comigo correram para longe da Reitoria, onde a imprensa ainda estava se posicionando para o show. Eu, sabe-se lá por qual motivo, joguei a minha bolsa para um dos meninos da minha sala e voltei correndo para frente da reitoria, no meio dos policiais que avançavam para o Portão principal [e único] da ocupação.

Tentei tirar fotos e gravar vídeos de uma PM que estava sendo violenta com o nada, para nada. Os policiais quebravam as cadeiras no carrinho, faziam questão do barulho, da demonstração da força. Os crafts com avisos dos estudantes, frases e poemas eram rasgados, uma éspecie de símbolo. Enquanto tudo isso acontecia, parte da PM impedia a imprensa de chegar perto da área, impedindo que os repórteres vissem tudo isso. Voltando para confusão onde eu tinha me enfiado: os PMs arrombaram a porta principal, entraram (um grupo de mais ou menos 30, eu acho) e, logo em seguida, fecharam o portão. Trancaram-se dentro da reitoria com os alunos. Coisa boa não era.

Depois disso, o outro grupo de PMs,que impedia a mídia de se aproximar dessas cenas que eu contei , foi abrindo espaço. Quer dizer, não só abrindo espaço, mas também começando (ou fortalecendo) uma boa camaradagem para os repórteres que lá estavam atrás de cenas fortes e certezas.

“Me sigam para cá que vai acontecer um negócio bom pra filmar ali agora”, disse um dos militares para a enxurrada de “jornalistas”.

A cena era um terceiro grupo de PMs, arrombando um segunda porta da reitoria, sob a desculpa de que queria entrar. O repórter da Globo me perguntou (fui pra perto deles depois da confusão em que me meti com os policiais no início): “os PMs já entraram, não? Por que eles tão tentando por aqui também?”. Respondi: “sim, já entraram. E provavelmente estão fazendo essa cena pra vocês terem algum espetáculo pra filmar” 

A palhaçada organizada pelos policiais e alimentada pelos repórteres que lá estavam continuou por algumas horas. A imprensa ia contornando a reitoria, na esperança de alguma cena forte. Enquanto isso, PM e alunos estavam juntos, dentro da Reitoria, sem ninguém de fora poder ver ou ouvir o que se passava por lá. Quem tentasse entrar ou enxergar algo que se passava lá na Reitoria, dava de cara com os escudos da tropa de choque, até o fim.

Enquanto amanhecia, universitários a favor da ocupação, ou contra a PM ou simplesmente contra toda a violência que estava escancarada iam chegando. Os alunos pediam para entrar na reitoria. Eu pedia para entrar na reitoria. Tudo que todo mundo queria era saber o que realmente estava acontecendo lá dentro. A PM não levava os estudantes da ocupação para fora e o pedido de todo mundo era “queremos algo às claras”. Por que ninguém pode entrar? Por que ninguém pode sair?

Enquanto os alunos que estavam do lado de fora clamavam para entrar, ouvi de um grupo de repórteres (entre eles, SBT): “Não vamos filmar essas baboseiras dos maconheiros não! O que eles pedem não merece aparecer”. Entre risadas, pra não perder o bom humor. Além dos repórteres que já haviam decidido o que era verdade ou não, noticiável ou não, tinham pessoas misturadas a eles, gritando contra os estudantes, xingando. Eu mesma ouvi muitas e boas como“maconheirazinha”, “raça de merda” e “marginal” . 

Os estudantes que enfrentavam de verdade os policiais que faziam a ‘corrente’ em torno da Reitoria eram levados para dentro. Em questões de segundos, um estudante sumia da minha frente e era levado pra dentro do cerco. Para sabe-se lá o que.

Lá pras 7h30, depois de muito choro, puxões e algumas escudadas na cara, comecei a ver que os PMs estavam levando os estudantes da ocupação para dentro dos ônibus. Uma menina foi levada de maneira truculenta, essa foi a única coisa que meu 1,60m de altura conseguiu ver por trás de uma corrente da tropa de choque. Enquanto eu tentava entrar no cerco, para entender a história, a grande mídia já estava lá dentro. Fui conversar com um militar, explicar da JC. Ouvi em troca “ai, é um jornal da usp. De estudantes, não pode. Complica”.

Os ônibus com os alunos presos saíram da USP. Uma quantidade imensa de outros alunos gritavam com a PM. Eu e os dois amigos da minha sala (aqueles da madrugada) pegamos o carro e fomos para a DP.

Na DP, o sistema era o mesmo e meu cansaço e raiva só estavam maiores. Enjoo e dor de cabeça, era o meu corpo reagindo a tudo que eu vi pela manhã. Alunos saiam de 5 em 5 do ônibus para dentro da DP. Jornalistas amontoados. Familiares chegando. Alunos presos no ônibus, sem água, sem banheiro, sem comida, mas com calor. Pelo menos por umas 3h foi assim.

Enquanto a ficha caia e eu revisualizava todo o horror da reintegração de posse, outras pessoas da minha sala mandavam mensagens para gente, de como a grande imprensa estava cobrindo o caso. Um ato pacífico, né Globo? Não foi bem isso o que eu vi, nem o que o JC viu, nem o que centenas de estudantes presenciaram.

Enfim, sou contra a ocupação. Sempre tive várias críticas ao Movimento Estudantil desde que entrei na USP. Nunca aceitei a partidarização do ME. Me decepciono com a falta de propostas efetivas e com as discussões ultrapassadas da maioria das assembléias. Mas, nada, nada mesmo, justifica o que ocorreu hoje. Nada pode ser explicação pra violência gratuita, pro abuso do poder e, principalmente, pela desumanização da PM.

Não costumo me envolver com discussões do ME, divulgar textos ou participar ativamente de algo político do meio universitário. Mas, como poucos realmente sabem o que aconteceu hoje (e eu acredito que muita coisa vai ser distorcida a partir de agora, por todos os lados), achei que valeria a pena escrever esse texto. Taí o que eu vi.

Polêmica na USP. O quê está por trás da discussão da PM no campus

O grande irmão olha por você

Os estudantes da USP erraram? Cometeram excessos? Talvez. Mas não é isso que está em jogo. O que está posto no debate é uma disputa de visões sobre a polícia e a sociedade. Na contramão de uma pauta histórica do movimento estudantil, a manifestação catártica de facismo juvenil observada nas mídias sociais clama por um modelo de segurança pública falido. Clama pelas “tropas de elite”, por uma polícia ostensiva e repressiva na manutenção da “ordem”.

O Brasil segue sendo um dos poucos países do mundo a ter uma polícia militar para garantir a segurança de civis. Há um sério engano aí. E não se trata de ranço ideológico do período ditatorial. O modelo militar – rígido, hierarquizado, distante da sociedade, baseado no “combate” – simplesmente não funciona, sobretudo quando se trata de um ambiente por essência (ainda bem!) contestador, transgressor e polêmico como é grande parte das universidades públicas brasileiras.

Uma reforma que altere completamente a estrutura das polícias é fundamental. Apesar dos esforços de intelectuais como Luis Eduardo Soares, um dos maiores especialistas de segurança pública do Brasil, o assunto está longe de entrar na agenda. E por quê? Ora, porque parte da população, vocalizada nas manifestações de agora, simplesmente se convenceu de que o problema é falta de porrete, falta de “tropas de elite” capazes de realizar mais e mais limpezas sociais. E aí, com o apoio dessa parte da população, vemos crescer o número de casos lamentáveis e inaceitáveis de truculência e violação de direitos humanos.

Lá como cá, os problemas são os mesmos. Se fora da universidade, a desigualdade social, a ausência do Estado, a falta de oportunidades são problemas de polícia, a mesma visão impera dentro da universidade que, padecendo de iluminação e calçamento, infraestrutura decadente, transporte público precário, segue sem resolver a causa para lutar quixotescamente contra os sintomas. E nessa inversão patológica, vista recentemente na USP, a palavra de ordem é clamar por mais gente armada  no campus – como se mais porrete significasse automaticamente mais segurança.

A experiência mostra que quando desacompanhada da noção de comunidade, a ideia de segurança pública dificilmente consegue se descolar de repressão. Policiamento se faz com ações preventivas, discussão coletiva de problemas e prioridades de ação e sobretudo colaboração entre população e polícia. Seguir reforçando o modelo militaresco de polícia é compactuar com o caos da segurança pública no Brasil e nas universidades. Essa polícia repressiva, despreparada, desproporcional, aversa ao diálogo ao invés de proteger irá, como tem feito, reprimir e, no fim,  restará apenas a ilusão de segurança. Longe de resolver o problema, isso não fará muito mais do que amenizar momentaneamente o medo paranóico de parte da sociedade. O desejo de isolamento social asséptico das “gentes diferenciadas” não pode dominar esse debate.

Onde estava a polícia quando dos estupros de estudantes da UnB na 406 e 210 norte, fora dos muros da Universidade? Onde estava quando dos roubos e furtos dos estudantes que voltavam para casa pela L2 – também fora dos muros da Universidade? Queremos conforto psicológico ou resolver de vez nosso problema?

A luta é pelo o que julgamos as causas do problema – iluminação, calçamento, infraestrutura, sistema de transporte público de qualidade, etc. Mas a luta é também por um outro conceito de polícia, por um policiamento que seja comunitário – que seja realizado com a comunidade, para a comunidade. E para isso são necessários conselhos comunitários de segurança, treinamento específico, formação humanística dos profissionais, entre outras medidas. Repito: polícia sem comunidade é repressão. É ilusão achar que dois ou três policiais dentro de um campus universitário farão algo além de prender estudantes.

O que se impôs violentamente hoje na USP não foi a ordem, mas sim uma visão anacrônica de segurança, um modelo de polícia retrógrado e a defesa ideológica de uma sociedade vigilantista. E contra isso, seguiremos nos rebelando.

A Copa e a queda de Orlando Silva

Sem tirar nem por um palavra sequer. Excelente e esclarecedor texto sobre a queda de Orlando Silva e Copa no Brasil.

A Copa e a queda de Orlando Silva

Nota oficial da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa

A Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa das 12 cidades-sede, composta por movimentos sociais e populares, entidades, organizações e militantes que defendem uma Copa inclusiva, democrática e sem violações de direitos humanos, vêm a público se manifestar sobre a saída de Orlando Silva do Ministério dos Esportes, bem como reforçar a preocupação com a condução das questões relacionadas aos Mega Eventos no Brasil.

A gestão do ex-ministro Orlando Silva foi incapaz de avançar na efetivação da Política Nacional de Esporte. Ainda foi marcada pelo aparelhamento do Ministério para favorecimento das grandes empresas, pela terceirização da política pública através dos convênios com entidades particulares, pelo desrespeito aos atletas (muitos dos que competiram no PAN ficaram todo o primeiro semestre de 2011 sem receber o apoio financeiro das bolsas governamentais) e pelo descumprimento das decisões e diretrizes das Conferências Nacionais dos Esportes, como a criação do Sistema Nacional do Esporte e Lazer.

Durante o período em que esteve à frente do Ministério dos Esportes, experimentou-se pronunciada omissão do Estado na construção de uma política pública séria e efetiva no campo esportivo, bem como seguido desrespeito à sociedade civil e aos processos de participação democrática, motivo que, sozinho, já justificaria sua retirada.

Porém, seu principal legado é a condução autoritária e nebulosa das negociações e implantação da Copa do Mundo de 2014. Infelizmente, mais próximos de uma vitrine de oportunidades econômicas especulativas do que de um evento esportivo, visando sobretudo o lucro e o favorecimento da FIFA e de seus patrocinadores. Os jogos projetados pela gestão de Orlando Silva, e de todo o governo federal, são responsáveis diretos pelos grandes prejuízos sociais, econômicos e culturais já instaurados ou em fase de consolidação no país.

Acompanhamos diariamente o estado de exceção imposto para a viabilização da Copa no Brasil nos moldes ditados pela FIFA. Vemos populações inteiras sendo despejadas (números ainda provisórios apontam que aproximadamente 150 mil famílias serão atingidas), camelôs sendo proibidos de exercer suas atividades, moradores em situação de rua expulsos, cidades militarizadas, obras superfaturadas, desvio de dinheiro público e a criação de uma base legal que visa ferir a soberania brasileira e os direitos historicamente conquistados.

A Lei Geral da Copa, idealizada também pelo Ministério de Orlando Silva e agora em discussão no Congresso Nacional, merece atenção e desconfiança da população, pois prevê:

a) as patentes para a FIFA de nomes e símbolos relacionados à Copa;

b) a supressão dos direitos à meia-entrada e outros direitos do consumidor conquistados;

c) a proibição de atividade em território público, mas considerado pela FIFA como de interesse dos jogos;

d) a substituição do visto consular pelo ingresso vendido pela FIFA como autorização de entrada no país; e, principalmente,

e) pela submissão do Estado brasileiro como responsável por todos os prejuízos da entidade.

Ademais, a Lei Geral também cria novos tipos penais e juizados especiais que servirão para coibir e criminalizar a população brasileira em seu próprio território, colocando os interesses estrangeiros (da FIFA) acima dos nacionais.

A FIFA é uma empresa privada, assim como seu Comitê Organizador Local, e tanto a empresa quanto seus dirigentes são alvo de inúmeras denúncias e investigações internacionais.

Finalmente, o Ministério dos Esportes e o governo brasileiro já autorizaram maior endividamento dos estados e municípios

para a Copa. Também aprovaram orçamentos bilionários, desvirtuando prioridades, e isenção fiscal para todas as atividades relacionadas aos Mega Eventos. Ou seja, a FIFA e as pessoas a ela ligadas não pagarão um único centavo de impostos no Brasil. Ficará a dívida, a conta que já está sendo paga pela falta de investimentos nas políticas de saúde, educação, habitação e trabalho, entre outras.

Orlando Silva caiu depois de uma gestão desastrosa para o Esporte e a sociedade brasileira. Infelizmente, porém, esta mesma política deve continuar com Aldo Rebelo, uma vez que ainda não foi questionada.

Lutaremos sempre para barrar medidas abusivas como a Lei Geral e garantir o direito das populações atingidas pela Copa do Mundo.

O ministro sai acuado por várias denúncias de desvio de verba e favorecimento ilícito. Nos posicionamos pela justiça e respeito aos direitos e garantias fundamentais como princípio norteador. E defendemos também a publicidade e transparência, inclusive para que a população saiba, dentre outras coisas, que o novo Ministro dos Esportes, Aldo Rebelo, teve sua campanha financiada por pelo menos três dos 10 patrocinadores nacionais da CBF, além de empreiteiras beneficiadas com as obras da Copa de 2014.

Por essas razões, defendemos acima de tudo:

a) que as obras para a viabilização da Copa de 2014 sejam realizadas com transparência, participação e controle social, assegurando o direito à moradia e ao trabalho; todas as populações (trabalhadores e moradores) removidos pelas obras da Copa tenham seu direito de defesa respeitado; e possam ter de volta moradia e emprego dignos;

b) que os(as) atletas olímpicos tenham seu direito à bolsa Atleta garantido e que as políticas da Conferência de Esporte sejam cumpridas, bem como que a Política de Esporte Nacional seja desenvolvida de forma responsável e pública, e não através de transferência de recursos a convênios privados sem controle social;

c) que a população brasileira tenha o direito de opinar sobre a perda de soberania com a Lei Geral da Copa, os gastos bilionários do orçamento público para a realização da Copa e a isenção de impostos para a Fifa.

Sem estes direitos assegurados, de nada vale o direito de defesa do ministro, do governo federal e da FIFA, pois seus crimes e violações em curso.

Assinam esta nota os Comitês Populares da Copa de Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Manaus, Cuiabá, Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre, Fortaleza, Curitiba e Natal.

31 de Outubro de 2011

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